A dor crônica no ombro é um desafio. Condições como a artrose da articulação principal (glenoumeral), a artrose acromioclavicular ou a capsulite adesiva (ombro congelado) podem levar a uma dor persistente que não responde a fisioterapia, medicamentos ou infiltrações. Para esses casos, a radiofrequência surge como uma técnica minimamente invasiva e altamente eficaz, atuando de uma forma que muitos ainda não conhecem: modulando ou “desligando” os nervos que levam a sensação de dor do ombro para o cérebro.
O segredo: a inervação do ombro
O que a maioria das pessoas não sabe é que a articulação do ombro é inervada por uma rede de pequenos ramos nervosos. O principal deles é o nervo supraescapular. Este nervo é responsável por cerca de 70% de toda a inervação sensorial da articulação do ombro. Outros nervos, como o axilar e o peitoral lateral, também contribuem.
Em condições de dor crônica, esses nervos se tornam hipersensíveis e disparam sinais de dor constantemente. A radiofrequência foca nesses “fios” para silenciar o alarme da dor.
A radiofrequência pulsada: modulando a dor sem destruir o nervo
Diferente da radiofrequência térmica (ablativa) usada em outras áreas, a abordagem mais comum e segura para o nervo supraescapular é a radiofrequência pulsada.
- O que é: É uma modalidade de radiofrequência que não visa destruir o nervo. Em vez disso, ela aplica a corrente elétrica em pulsos curtos e controlados. Isso gera um campo eletromagnético ao redor do nervo, mas sem aquecê-lo a ponto de causar uma lesão permanente (a temperatura não passa de 42°C).
- Como funciona: O campo eletromagnético altera o comportamento das membranas das células nervosas, “acalmando” o nervo e diminuindo sua capacidade de transmitir sinais de dor. É um efeito de neuromodulação.
- Por que pulsada? O nervo supraescapular também tem uma função motora importante (inerva os músculos supraespinhal e infraespinhal do manguito rotador). Destruí-lo com calor (radiofrequência térmica) poderia causar fraqueza e atrofia muscular. A radiofrequência pulsada preserva a função motora, tratando apenas a dor.
O procedimento passo a passo:
- Localização do nervo: O procedimento é inteiramente guiado por ultrassom. O médico utiliza o ultrassom para visualizar o nervo supraescapular em tempo real, no local onde ele passa por uma incisura na escápula (omoplata).
- Posicionamento da agulha: Uma agulha especial (cânula) é inserida e sua ponta é posicionada com precisão milimétrica ao lado do nervo, evitando vasos sanguíneos próximos.
- Aplicação da radiofrequência pulsada: Um eletrodo é passado pela agulha e conectado a um gerador. A radiofrequência pulsada é então aplicada por vários minutos (geralmente de 6 a 8 minutos).
- Nervos acessórios: O médico também pode aplicar a radiofrequência pulsada no nervo axilar para um alívio mais completo.
Radiofrequência térmica: uma opção para a articulação acromioclavicular
Para a dor localizada especificamente na articulação acromioclavicular (a pequena articulação na parte de cima do ombro, entre a clavícula e o acrômio), a radiofrequência térmica (ablativa) pode ser uma opção. Como os nervos que inervam esta articulação são puramente sensoriais, eles podem ser cauterizados com segurança para um alívio duradouro da dor da artrose neste local.
Quem são os melhores candidatos?
A radiofrequência no ombro é uma excelente alternativa para pacientes com:
- Dor crônica no ombro devido à artrose que não melhorou com outros tratamentos.
- Capsulite adesiva (ombro congelado), para quebrar o ciclo de dor e permitir uma reabilitação mais eficaz.
- Dor persistente após a cirurgia de prótese de ombro.
- Dor crônica após uma lesão irreparável do manguito rotador.
- Pacientes que não podem ou não querem se submeter a uma cirurgia de grande porte.
O que você pode esperar?
- Alívio da dor e melhora da função: O objetivo é uma redução significativa da dor, o que permite ao paciente dormir melhor e realizar atividades diárias com mais facilidade.
- Duração do efeito: O alívio com a radiofrequência pulsada pode durar de 6 a 18 meses. O procedimento pode ser repetido com segurança.
- Recuperação rápida: O procedimento é feito em regime de ambulatório, e o paciente vai para casa no mesmo dia.
- A chave para a reabilitação: Assim como em outras articulações, o principal benefício da radiofrequência é o controle da dor, que abre uma janela de oportunidade para que o paciente participe ativamente da fisioterapia. É a combinação do alívio da dor com o fortalecimento e a recuperação do movimento que traz os melhores resultados a longo prazo.
Uma ferramenta no arsenal terapêutico
A radiofrequência no ombro é uma técnica sofisticada que vai além das opções de tratamento convencionais. Ela não trata a causa estrutural do problema (a artrose ou a lesão), mas oferece um controle da dor notavelmente eficaz e seguro, focando diretamente na via de sinalização neural. Para muitos pacientes que já haviam perdido a esperança, a radiofrequência representa o que eles mais precisam: uma chance de viver com menos dor e mais movimento.