A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou oficialmente o início do primeiro estudo clínico no Brasil para testar uma proteína capaz de estimular a regeneração do tecido da medula espinhal — uma das maiores fronteiras da medicina moderna. A substância, chamada polilaminina, foi desenvolvida por cientistas brasileiros e será aplicada em pacientes que sofreram lesão medular traumática recente.
A liberação marca um avanço histórico para a ciência nacional e coloca o Brasil entre os poucos países do mundo que investigam terapias biológicas capazes de reativar o crescimento de neurônios após uma lesão neurológica grave.
O que é a polilaminina
A polilaminina é uma versão reorganizada da laminina, uma proteína presente naturalmente no corpo humano e fundamental para a formação do sistema nervoso durante o desenvolvimento embrionário. No cérebro e na medula, a laminina atua como um “mapa” que orienta o crescimento dos neurônios e a formação das conexões nervosas.
Após um trauma na medula espinhal, esse ambiente biológico é profundamente alterado. Forma-se uma cicatriz glial que impede a regeneração dos axônios — estruturas responsáveis por transmitir os impulsos nervosos. A polilaminina foi criada justamente para reconstruir um ambiente favorável à regeneração, funcionando como uma espécie de “andaime molecular” que permite que os neurônios voltem a crescer.
Em estudos pré-clínicos com animais e em aplicações humanas iniciais no Brasil, a proteína demonstrou capacidade de estimular a reconexão neuronal e restaurar parcialmente funções motoras.
Como será o estudo autorizado pela Anvisa
O ensaio clínico autorizado pela Anvisa é um estudo de fase 1, cujo principal objetivo é avaliar a segurança do uso da polilaminina em humanos.
Serão recrutados cinco pacientes com:
- Idade entre 18 e 72 anos
- Lesão traumática completa da medula espinhal
- Lesão localizada entre as vértebras T2 e T10
- Cirurgia realizada em até 72 horas após o trauma
Durante o procedimento cirúrgico de estabilização da coluna, a polilaminina será aplicada diretamente sobre o local da lesão medular. Os pacientes serão acompanhados por meses para avaliar possíveis efeitos adversos, alterações neurológicas e sinais iniciais de regeneração.
Somente após a comprovação de segurança o tratamento poderá avançar para fases 2 e 3, que avaliam eficácia e impacto funcional.
Resultados iniciais já chamaram atenção
Antes da autorização formal, a polilaminina já havia sido utilizada de forma experimental em pequenos grupos de pacientes no Brasil, dentro de protocolos de pesquisa aprovados por comitês de ética.
Em alguns casos, pessoas diagnosticadas com paraplegia completa apresentaram:
- Recuperação parcial de movimentos nas pernas
- Retorno de controle de tronco
- Sensibilidade abaixo do nível da lesão
- Capacidade de dar passos com auxílio
Esses resultados, embora ainda preliminares, foram considerados altamente relevantes pela comunidade científica, pois lesões completas da medula raramente apresentam recuperação espontânea.

Tecnologia 100% brasileira
O projeto é liderado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com coordenação da biomédica Tatiana Sampaio, e conta com a parceria do laboratório Cristália, responsável pela produção farmacêutica da proteína em ambiente controlado.
O desenvolvimento da polilaminina recebeu investimentos do Ministério da Saúde, que classificou a tecnologia como estratégica para o país, tanto pelo impacto clínico quanto pelo potencial de inovação biomédica.
A Anvisa analisou o projeto por meio de seu comitê de inovação e concedeu prioridade regulatória, dada a relevância científica e social do estudo.
O impacto das lesões medulares no Brasil
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registra entre 6 mil e 8 mil novos casos de lesão medular traumática por ano, principalmente causados por:
- Acidentes de trânsito
- Quedas
- Mergulhos em águas rasas
- Violência urbana
A maioria dos pacientes é jovem, em idade produtiva, e passa a depender de cuidados permanentes. Atualmente, não existe nenhum tratamento capaz de reverter o dano neurológico — apenas medidas de estabilização, fisioterapia e prevenção de complicações.
Por que este estudo é tão importante
Se a polilaminina demonstrar segurança e eficácia, ela poderá se tornar a primeira terapia regenerativa aplicada diretamente à medula espinhal no Brasil.
Isso abriria caminho para:
- Recuperação funcional parcial ou total
- Redução da dependência de cadeiras de rodas
- Menor risco de infecções, escaras e complicações
- Maior autonomia e qualidade de vida
Mais do que um novo medicamento, trata-se de uma mudança de paradigma: sair da lógica de “adaptação à paralisia” para a possibilidade real de regeneração do sistema nervoso.