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Bastidores médicos da NFL no Maracanã: Dr. Guilherme Runco detalha operação que reuniu cerca de 25 médicos em campo

Ortopedista que acompanhou o Baltimore Ravens no primeiro jogo oficial da NFL no Maracanã explica protocolo de concussão, atendimento a traumas graves, uso de vídeo, estrutura de emergência e o que o futebol brasileiro pode aprender com a liga americana.

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Mais de 72 mil pessoas acompanharam no Maracanã um capítulo inédito para o estádio: a primeira partida oficial da NFL disputada no local. Enquanto Baltimore Ravens e Dallas Cowboys protagonizavam o espetáculo dentro de campo, uma operação médica pouco visível ao público funcionava paralelamente para responder a situações que poderiam variar de uma entorse a uma parada cardiorrespiratória.

O ortopedista e especialista em traumatologia esportiva Dr. Guilherme Runco integrou a equipe médica de apoio ao Baltimore Ravens e acompanhou a operação desde os treinamentos anteriores ao jogo até a partida. Segundo ele, cerca de 25 médicos estavam envolvidos na estrutura montada no gramado, entre profissionais brasileiros e integrantes da organização da liga.

Em entrevista ao Portal da Ortopedia, Runco descreve os bastidores do atendimento, compara o modelo da NFL com o futebol brasileiro e explica por que neurologistas independentes, médicos dedicados exclusivamente à via aérea, revisão de lances por vídeo e até um médico bilíngue atuando como tradutor fazem parte do planejamento.

Portal da Ortopedia — Como surgiu o convite para integrar a equipe médica da NFL no Rio e o que significou unir profissão e paixão pelo futebol americano?

Dr. Guilherme Runco — O convite surgiu a partir do Dr. Luiz Augusto Macedo, cardiologista e médico do Flamengo. Quando a NFL realiza um jogo internacional, precisa montar uma equipe médica local. Segundo a estrutura que nos foi apresentada, os profissionais das equipes americanas não podem simplesmente exercer a atividade médica no Brasil, então são necessários médicos locais para prestar essa assistência.

O Dr. Luiz Augusto foi escolhido como coordenador médico local. Somos amigos há bastante tempo, ele sabe que eu gosto de futebol americano e, alguns meses antes do jogo, perguntou se eu gostaria de integrar a equipe. Obviamente, aceitei imediatamente.

A partir daí começamos a construir toda essa operação, que é bastante grande.

Quanto ao sentimento, acho que foi parecido com o de quem estava no estádio. Foi um jogo muito equilibrado, decidido praticamente no último segundo. Estar ali, trabalhando dentro do campo, junto das equipes, mas ao mesmo tempo vivenciando uma experiência tão especial, foi algo indescritível.

Portal da Ortopedia — O público vê o jogo, mas não toda essa operação. O que existe nos bastidores médicos de uma partida da NFL?

Dr. Guilherme Runco — A estrutura é gigantesca, muito maior do que as pessoas imaginam.

Para dar uma dimensão, havia em torno de 25 médicos envolvidos no gramado, entre médicos americanos ligados à organização e profissionais brasileiros que efetivamente davam assistência médica.

Tudo precisa ser previsto porque é um esporte extremamente físico e de contato. Você pode ter desde traumas ortopédicos, como torções, fraturas e luxações, até traumas abdominais, torácicos e cranianos.

Também existe a possibilidade, embora rara, de situações com risco de vida.

A NFL já teve casos em que foi necessário realizar atendimento de emergência dentro do campo, retirar atleta para hospital e conduzir reanimação cardiopulmonar. Por isso, os protocolos são muito rigorosos.

Portal da Ortopedia — Como essa equipe é dividida para responder a situações tão diferentes?

Dr. Guilherme Runco — Há profissionais com funções extremamente específicas.

Tínhamos, por exemplo, um anestesista dedicado exclusivamente à via aérea. Se um atleta fica inconsciente, sofre uma parada cardíaca, um trauma de face ou apresenta qualquer situação que comprometa a respiração, existe um especialista ali para garantir a via aérea.

Talvez ele passe o jogo inteiro sem precisar atuar. Mas, se for necessário, está preparado especificamente para aquilo.

Também havia um médico coordenando a equipe de reanimação cardiopulmonar, além de duas ambulâncias com equipes médicas.

Outro ponto importante era a presença de dois neurologistas ligados à NFL para avaliação de concussão cerebral.

É uma estrutura montada pensando também nos eventos que quase nunca acontecem. Porque, quando acontecem, você precisa estar pronto para responder imediatamente.

Portal da Ortopedia — E qual foi exatamente a sua função junto ao Baltimore Ravens?

Dr. Guilherme Runco — Minha função era a de auxiliar médico de uma das equipes.

A NFL designa um profissional brasileiro para apoiar cada time. Eu fiquei com o Baltimore Ravens e o Dr. Fernando Sasaki, que também trabalha no Flamengo, ficou na mesma função com o Dallas Cowboys.

Acompanhei o Baltimore durante todo o período no Brasil.

Na sexta-feira, fui ao treinamento, me apresentei à equipe médica e acompanhei as atividades. No sábado, estivemos no Maracanã fazendo um treinamento prévio.

No domingo, durante o jogo, permaneci auxiliando a equipe médica do Baltimore no que fosse necessário: medicamentos, transporte de jogadores, radiografias e outras demandas.

Havia também uma equipe hospitalar preparada para eventual remoção ou transferência de atletas. Tudo foi montado com uma prioridade muito clara: preservar a segurança do jogador e permitir que ele exerça sua função em condições adequadas.

Portal da Ortopedia — O senhor trabalhou durante anos no futebol brasileiro. O que essa estrutura da NFL pode ensinar ao nosso futebol?

Dr. Guilherme Runco — Muita coisa.

Situações como parada cardíaca ou morte súbita em atletas profissionais são extremamente raras. Mas, quando acontecem, são dramáticas.

O que chama atenção na NFL é justamente o nível de preparação, logística e organização para eventos que provavelmente nunca acontecerão naquela partida.

Alguns desses profissionais podem passar muitos jogos praticamente sem intervir. Mas, quando forem necessários, estarão em uma situação em que realmente podem salvar uma vida.

Estou fora do futebol há mais de dez anos, embora continue em contato com colegas, e a estrutura que conhecemos no futebol brasileiro é muito menor.

Normalmente você tem o médico de um time de um lado, o médico do outro e a equipe da ambulância. Não existe essa mesma quantidade de especialistas dedicados a determinadas emergências dentro do campo.

Essa preparação faz diferença.

Portal da Ortopedia — A concussão parece ser um dos pontos em que essa diferença fica mais evidente. Por quê?

Dr. Guilherme Runco — Porque existe a questão da independência da avaliação.

No futebol brasileiro, normalmente quem toma a decisão é o médico do clube.

Isso gera uma situação muito difícil. O médico presta serviço ao clube, conhece o jogador, está inserido naquele ambiente e pode existir pressão de treinador, diretor, torcida e até do próprio atleta.

O profissional precisa tentar evitar esse viés, claro, mas é muito difícil isolar completamente tudo isso.

Na NFL, existe o médico independente contratado pela própria liga.

Ele não está ali para defender o interesse de um dos times.

Se determinar que determinado atleta precisa sair para avaliação de concussão, não existe discussão. Ele sai e é avaliado.

Portal da Ortopedia — O senhor mencionou até a presença de um médico exclusivamente para tradução. Como funcionava?

Dr. Guilherme Runco — Isso mostra o grau de preocupação da organização.

Havia um profissional brasileiro que vive há muitos anos nos Estados Unidos, formou-se médico lá e é totalmente fluente em português e inglês.

Ele foi trazido ao Brasil para permanecer no campo como intérprete médico.

Não era simplesmente um tradutor. Era um médico capaz de compreender a terminologia utilizada pelos profissionais.

Então, se em uma emergência houvesse alguma dificuldade de comunicação entre as equipes brasileira e americana, existia alguém preparado exclusivamente para eliminar esse risco.

É algo que parece impensável, porque significa trazer um médico para permanecer ali apenas para garantir que nenhuma decisão seja prejudicada por uma falha de comunicação.

Mas é exatamente esse tipo de detalhe que demonstra o nível de preparação.

Portal da Ortopedia — A NFL também utiliza revisão por vídeo para identificar possíveis lesões. Como funciona?

Dr. Guilherme Runco — Existe um médico em uma cabine de vídeo no estádio.

Ele acompanha os replays e tem a prerrogativa de identificar situações suspeitas, principalmente de concussão.

Às vezes, um atleta cai, demora mais para levantar ou fica um pouco cambaleante. Durante o jogo, isso pode passar despercebido porque tudo acontece muito rápido e os médicos de campo podem estar olhando para outro local.

O médico que está vendo o replay consegue identificar isso.

Se houver suspeita, ele avisa o campo e aquele atleta é imediatamente retirado para avaliação dentro do protocolo de concussão.

Além disso, existem monitores nas laterais do campo. O médico do time e o neurologista independente podem rever o mecanismo do trauma.

Isso também pode ser útil para o ortopedista. Você consegue olhar novamente para uma torção de joelho ou tornozelo e entender melhor como ocorreu o trauma.

É mais uma camada de segurança.

Portal da Ortopedia — E quando o atleta quer continuar jogando, mesmo existindo suspeita médica?

Dr. Guilherme Runco — Esse é um dos grandes problemas quando não existe um profissional independente.

Quando o médico é ligado ao clube, há todo aquele contexto. O atleta quer continuar, o treinador quer o melhor jogador em campo e existe a pressão competitiva.

Na NFL, quando o médico independente determina a retirada, não existe espaço para questionamento.

O atleta primeiro é avaliado na lateral do campo.

Eles têm uma estrutura que permite cobrir a maca com uma espécie de tenda. Isso ajuda a diminuir estímulos externos e cria um ambiente um pouco mais adequado.

Ali ficam o atleta, o médico da equipe e o neurologista independente.

Se ele for aprovado nessa avaliação inicial, pode voltar.

Se persistir qualquer dúvida, vai para o vestiário, onde é examinado em um ambiente mais tranquilo, enquanto o jogo continua com outro jogador.

Se passar pelo protocolo, pode retornar. Se não passar ou se a concussão for diagnosticada, não volta para aquela partida.

Pode ser uma final. Pode ser o principal jogador do time ou o quarterback. Não existe discussão.

Portal da Ortopedia — Essa possibilidade de avaliação mais longa também diferencia a NFL do futebol?

Dr. Guilherme Runco — Sim.

No futebol existe uma dificuldade adicional porque o atleta não pode simplesmente ser substituído temporariamente durante 10 ou 15 minutos para passar por uma avaliação detalhada e depois voltar normalmente.

Já houve mudanças, inclusive com substituição adicional em situações de concussão, mas ainda é diferente.

Uma avaliação de concussão envolve memória, cálculos e uma série de testes.

Imagine fazer isso na beira de um campo com 70 mil pessoas gritando, luzes, ruído, pressão do jogo e treinador pedindo para o atleta retornar.

Os quadros mais sutis podem ser muito difíceis de reconhecer nessas condições.

Na NFL, a possibilidade de levar o jogador para um ambiente mais reservado facilita muito esse processo.

Portal da Ortopedia — Antes da partida houve muita discussão sobre o gramado do Maracanã. Ele representou algum problema médico?

Dr. Guilherme Runco — Na minha avaliação, o gramado se comportou muito bem e não teve influência no resultado.

Até o treinador do Dallas comentou depois da partida que não havia percebido impacto negativo.

Também precisamos entender que o futebol americano exige uma superfície de maneira diferente do futebol. A bola não precisa rolar pelo campo da mesma forma.

Mas o gramado interfere, sim, no risco.

Se estiver muito escorregadio, o atleta perde estabilidade para acelerar, cortar e mudar de direção.

No outro extremo, se o pé ficar excessivamente preso na superfície, também é perigoso. O pé trava, mas o restante do corpo continua girando, aumentando a possibilidade de lesões de tornozelo ou joelho.

Buracos e irregularidades também são preocupantes.

Então o ideal é uma superfície regular que não seja nem excessivamente escorregadia nem excessivamente aderente.

Portal da Ortopedia — E a diferença entre gramado natural e sintético?

Dr. Guilherme Runco — É uma discussão antiga na NFL.

Nos Estados Unidos, vários times utilizam gramado sintético e há reclamações de atletas porque determinadas superfícies prendem mais o pé.

Existe uma preferência importante dos jogadores pelo gramado natural.

Naturalmente, ele também precisa estar em boas condições, sem buracos, irregularidades ou excesso de escorregamento.

No Maracanã, não identifiquei um problema relevante nesse sentido.

Portal da Ortopedia — Equipamentos e regras também evoluíram para reduzir o risco de lesões?

Dr. Guilherme Runco — Sem dúvida.

Anos atrás, quando fui convidado para escrever um capítulo de livro sobre lesões no futebol americano, fui estudar mais profundamente o tema.

Um dado que encontrei naquela época era uma média de aproximadamente 5,9 lesões por partida.

No jogo do Maracanã, tivemos cinco jogadores que sofreram lesões e não conseguiram retornar ao jogo. Houve fratura, lesão ligamentar e outras ocorrências que muitas vezes nem são percebidas pelo público.

A liga tenta reduzir esses números tanto pela evolução dos equipamentos quanto pelas mudanças nas regras.

Determinadas formas de derrubar um adversário que eram permitidas alguns anos atrás hoje são proibidas porque aumentam o risco de lesão.

O próprio kick-off mudou bastante. Antes, os atletas corriam uns em direção aos outros desde o início, gerando colisões com energia enorme.

Hoje, existem regras que limitam essa movimentação inicial e reduzem a velocidade relativa antes do contato.

O objetivo é diminuir a energia do impacto.

Portal da Ortopedia — Mesmo com essas mudanças, continua sendo um esporte de altíssimo impacto.

Dr. Guilherme Runco — Com certeza.

Você está falando de atletas muito fortes, pesados e extremamente rápidos. Existem jogadores com aproximadamente dois metros de altura, mais de 120 quilos, correndo em velocidades muito altas.

Quando dois atletas assim se chocam, a energia é enorme. A comparação visual lembra um acidente automobilístico.

Por isso eles utilizam capacete, ombreiras e proteções em diferentes regiões do corpo.

Mesmo com tudo isso, as lesões continuam acontecendo porque faz parte da característica do esporte.

O que a liga tenta fazer é reduzir principalmente os eventos mais graves, como traumas cranianos, torácicos e outras condições com risco à vida.

Portal da Ortopedia — Depois de experiências no Corinthians, Flamengo e outros momentos do alto rendimento, que lugar esse jogo ocupa na sua carreira?

Dr. Guilherme Runco — Tive momentos muito especiais, principalmente nos anos em que trabalhei no Corinthians.

Vivemos o título da Libertadores e o Mundial de Clubes em 2012. São acontecimentos que, profissionalmente e emocionalmente, ainda coloco acima.

Mas essa experiência da NFL certamente entra no meu top 5 e provavelmente no top 3 de momentos esportivos que vivi.

Estar dentro do primeiro jogo oficial da NFL no Maracanã foi algo muito especial.

Portal da Ortopedia — Qual imagem daquele domingo ficou mais marcada?

Dr. Guilherme Runco — O hino nacional foi um momento muito emocionante.

Ver o estádio lotado cantando e perceber a própria reação dos jogadores americanos àquela atmosfera foi muito especial.

E existe também uma questão pessoal.

Eu torço para o Tennessee Titans e acompanhei durante muitos anos o Derrick Henry, que hoje está no Baltimore.

Ele fez dois touchdowns naquele jogo.

Ver um jogador que acompanhei por tantos anos, um ídolo do time para o qual torço, jogando e marcando tão perto de mim foi algo que eu jamais imaginei viver.

E houve espaço até para um detalhe bem brasileiro nos bastidores. Depois da gravação formal da entrevista, surgiu a lembrança descontraída de integrantes do evento dançando ao som de “Evidências” — uma cena que, segundo a conversa, também poderia disputar lugar entre as memórias daquele domingo.

Portal da Ortopedia — Existe perspectiva de novos jogos no Rio. O senhor gostaria de integrar novamente essa equipe?

Dr. Guilherme Runco — Gostaria, obviamente.

Montamos uma equipe bastante qualificada. O treinamento pré-jogo e os atendimentos foram muito bem executados e acredito que ficaram dentro do padrão esperado pela NFL.

Pelo que nos foi informado, o acordo prevê no mínimo três jogos no Maracanã em cinco anos. Como este foi o primeiro, isso significaria pelo menos mais dois dentro desse período.

Mas existe possibilidade de expansão.

A NFL vem aumentando sua quantidade de jogos internacionais. Londres, por exemplo, já recebe vários jogos por temporada.

Não vejo como impossível que, em algum momento, o Brasil tenha dois jogos no mesmo ano, eventualmente um no Rio e outro em São Paulo.

Portal da Ortopedia — O resultado do Rio Game aumenta essa possibilidade?

Dr. Guilherme Runco — Acredito que sim.

A repercussão foi muito grande, os jogadores gostaram e houve uma movimentação turística importante.

Vi uma informação de que ingressos foram vendidos para pessoas de 67 países. Então não foi um evento restrito ao público brasileiro ou americano.

O Rio tem ainda a vantagem de ser um destino turístico internacional. Uma pessoa pode gostar da NFL e aproveitar a viagem para conhecer a cidade.

Em 2026, segundo as informações que recebemos, a NFL pretende realizar nove jogos internacionais em diferentes países.

A ideia da liga é seguir aumentando esse número ao longo dos próximos anos, com uma perspectiva de chegar, futuramente, a uma programação internacional muito mais ampla.

Se essa expansão realmente acontecer, existe espaço para que o Brasil receba mais jogos — e talvez até mais de um em uma mesma temporada.

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