A queixa de “tensão no pescoço” é uma das mais frequentes na prática clínica. Em muitos casos, o foco diagnóstico recai exclusivamente sobre postura, ergonomia ou sobrecarga mecânica. No entanto, a neurofisiologia revela uma relação mais complexa entre mandíbula e musculatura cervical. O endurecimento do trapézio pode ter início em padrões de hiperatividade mandibular, como o bruxismo, sustentados por estresse crônico e por circuitos neuromotores compartilhados.
Circuitos compartilhados entre mandíbula e pescoço
O sistema trigeminal, responsável pela inervação sensitiva e motora da face e da mastigação, mantém conexões diretas com núcleos cervicais superiores. Essa integração permite respostas reflexas coordenadas entre músculos mastigatórios e cervicais. Quando a mandíbula entra em padrão de hiperatividade, ocorre co-contração reflexa do trapézio e de músculos estabilizadores do pescoço, elevando o tônus basal e favorecendo dor e rigidez.
Esse mecanismo explica por que pacientes com disfunções temporomandibulares frequentemente apresentam desconforto cervical, mesmo na ausência de alterações estruturais evidentes na coluna.
Estresse, alerta central e aumento do tônus muscular
O estresse sustentado mantém o sistema nervoso central em estado de alerta contínuo. Esse cenário aumenta a ativação dos músculos mastigatórios, favorece apertamento dentário e episódios de bruxismo, especialmente noturno. A hiperatividade mandibular, por sua vez, amplifica a sobrecarga sobre o trapézio por meio de co-contrações persistentes, resultando em sensação de peso nos ombros, dor cervical e limitação funcional.
Com o tempo, o padrão se consolida como um ciclo vicioso: estresse aumenta o tônus, o tônus gera dor, e a dor retroalimenta o estresse.
Inflamação e sensibilização periférica
Quadros de disfunção temporomandibular e apertamento crônico estão associados à liberação de mediadores inflamatórios, como interleucina-6 e TNF-alfa. Esses mediadores aumentam a sensibilidade muscular e reduzem o limiar de dor, facilitando a cronificação do quadro. A região cervical, por compartilhar vias de processamento nociceptivo com a ATM, torna-se particularmente vulnerável à sensibilização.
O resultado clínico é dor persistente, rigidez e resposta limitada a abordagens que não consideram a origem mandibular do problema.
Quando a dor no pescoço é cervicogênica por origem mandibular
Pacientes que chegam com tensão cervical recorrente, cefaleia associada, dor em ombros e sensação de rigidez matinal podem apresentar um quadro de bruxismo central com repercussão cervicogênica. Sem a avaliação da ATM e dos padrões de apertamento, o diagnóstico permanece incompleto e o tratamento tende a falhar ou oferecer alívio apenas temporário.
Abordagem integrativa e papel do cirurgião-dentista
A compreensão do corpo como uma rede integrada é essencial. O cirurgião-dentista com abordagem integrativa atua na identificação de padrões mandibulares disfuncionais, no manejo do bruxismo e na coordenação com fisioterapia e outras especialidades para reduzir a sobrecarga cervical. Intervenções combinadas, que abordam estresse, função mandibular e controle do tônus cervical, apresentam melhores desfechos clínicos.
O trapézio reage ao que a mandíbula vivencia. A dor cervical persistente pode ter origem em bruxismo e disfunções da ATM sustentadas por estresse e hiperativação central. Reconhecer essa conexão neurofisiológica amplia a precisão diagnóstica e direciona tratamentos mais eficazes, evitando a cronificação da dor e melhorando a qualidade de vida do paciente.