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Cirurgia de quadril no idoso: o estudo que tranquiliza cirurgiões e famílias sobre o timing ideal da operação

Operar no dia seguinte à fratura mostrou resultados de segurança idênticos a operar no mesmo dia — e isso muda a forma como equipes médicas planejam a cirurgia.

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Por décadas, a mensagem nas alas de emergência foi quase um dogma: fratura de quadril em idoso é cirúrgica, e quanto mais rápido, melhor. Mas um acúmulo crescente de evidências está quebrando esse consenso — e aliviando a pressão sobre equipes médicas, pacientes e familiares.

Um dos maiores ensaios clínicos já realizados sobre o tema — o HIP ATTACK Trial, publicado na revista The Lancet e envolvendo quase 3.000 pacientes em 69 hospitais de 17 países — comparou cirurgia em até 6 horas versus cirurgia em 24 horas após a fratura. O resultado foi surpreendente para muitos: não houve diferença estatisticamente significativa em mortalidade ou complicações maiores em 90 dias entre os dois grupos.

Isso não significa que o tempo não importa. Significa que o tempo certo pode ser mais flexível do que se acreditava — e que operar com segurança é mais importante do que operar com velocidade extrema.

A dimensão do problema no Brasil

Antes de mergulhar nas evidências sobre timing cirúrgico, é fundamental entender o tamanho do desafio que as fraturas de quadril representam para a saúde pública brasileira.

Os dados do Ministério da Saúde revelam que, somente em 2024, houve mais de 344 mil atendimentos e hospitalizações de idosos por quedas. Desses, 13.385 não sobreviveram. A fratura de quadril é uma das consequências mais graves e mais comuns desse cenário — e sua gravidade vai muito além do osso quebrado.

Por que a fratura de quadril é tão letal?

O idoso não morre da fratura em si, mas das complicações causadas pela imobilidade prolongada: pneumonia, trombose venosa profunda, embolia pulmonar, infecção urinária e sepse. É por isso que a velocidade do retorno à mobilidade — e não apenas a velocidade da cirurgia — é o fator mais crítico para sobrevivência.

O estudo que quebra o dogma do “mesmo dia”

Durante anos, as diretrizes internacionais recomendavam operar a fratura de quadril em até 24 a 48 horas — com a presunção implícita de que “mais rápido é sempre melhor”. Equipes cirúrgicas eram pressionadas a operar no mesmo dia do trauma, mesmo à noite ou em finais de semana, com potencial impacto na qualidade da assistência.

HIP ATTACK Trial — Principais dados

Publicado em: The Lancet (2020) · 
Design: Ensaio clínico randomizado internacional · 
Pacientes: 2.970 pacientes em 69 hospitais de 17 países

Grupo Cirurgia Acelerada: Operados em mediana de 6 horas após o diagnóstico

Grupo Cuidado Padrão: Operados em mediana de 24 horas após o diagnóstico

Resultado primário aos 90 dias: 9% de mortalidade no grupo acelerado vs. 10% no grupo padrão (HR 0,91; IC 95%: 0,72–1,14; p=0,40). Diferença não estatisticamente significativa.

Em outras palavras: esperar até 24 horas para realizar a cirurgia — com o benefício de ter uma equipe descansada, o paciente devidamente estabilizado e toda a logística preparada — produziu desfechos clínicos equivalentes à operação de emergência nas primeiras horas.

Esse achado está alinhado com uma revisão sistemática publicada em 2024 no PMC (PubMed Central), que analisou estudos realizados entre 2015 e 2023 e concluiu: 

Não podemos afirmar com certeza que o tempo de cirurgia influencia diretamente a mortalidade em 30 dias ou em 1 ano.

O que a ciência diz: a janela segura de 24 a 48 horas

A mensagem das evidências atuais pode ser resumida assim: a cirurgia deve ser realizada o mais breve possível dentro de uma janela segura — e essa janela é de 24 a 48 horas. O que está fora da janela segura não é operar no dia seguinte, mas sim atrasar além de 48–72 horas sem justificativa clínica.

Atenção: o que realmente aumenta o risco

Um estudo brasileiro com 67 pacientes (RBO, 2016) encontrou que tempo de espera cirúrgica superior a 7 dias esteve significativamente associado ao óbito durante a internação (p=0,005). Outro estudo, com 2.448 pacientes, mostrou aumento significativo no risco de morte em pacientes operados após 48 horas (p<0,0001). Já a diferença entre 6 e 24 horas não se mostrou clinicamente relevante.

Da chegada ao hospital à recuperação: o que esperar a cada etapa

  • 0h: Chegada ao pronto-socorro
    Diagnóstico por Rx ou, em casos suspeitos sem fratura visível, por ressonância magnética ou tomografia (“quadril oculto”). Início da analgesia, hidratação, anticoagulação preventiva e avaliação geriátrica multidisciplinar.
  • 6–24h: Janela de estabilização clínica
    Período ideal para compensar comorbidades (cardíacas, pulmonares, renais), corrigir anemia e distúrbios eletrolíticos, e avaliar risco cirúrgico. Segundo as evidências, operar nessa janela produz resultados iguais à cirurgia de emergência imediata.
  • 24–48h: Momento cirúrgico recomendado pelas diretrizes
    A AAOS (Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos) e o NICE (UK) recomendam cirurgia dentro de 24 a 48 horas, com evidência moderada. Esse é o consenso atual para a maioria dos pacientes.
  • Após cirurgia: Mobilização precoce — o fator mais importante
    Na maioria dos casos, o paciente é estimulado a ficar de pé no dia seguinte à cirurgia, com auxílio de andador. A fisioterapia inicia imediatamente e é o pilar da recuperação funcional.
  • 3–4 meses: Consolidação e reabilitação ambulatorial
    A fratura leva em média 3 a 4 meses para consolidar completamente. Apenas 1/3 dos idosos recupera o mesmo nível funcional de antes da fratura, reforçando a importância da prevenção.

Qual tipo de cirurgia é indicada para fratura de quadril no idoso?

O tipo de procedimento depende diretamente da localização e do padrão da fratura, além da condição clínica e funcional do paciente.

Tipo de FraturaProcedimento IndicadoRetorno à marcha
Colo do fêmur (deslocada) em idososArtroplastia parcial ou total de quadril PróteseNo dia seguinte à cirurgia
Colo do fêmur em jovensOsteossíntese com parafusos (fixação interna) Fixação2 a 3 meses
Transtrocantérica (mais comum em idosos com osteoporose)Haste metálica intraóssea (haste cefalomedular) Haste1 a 2 dias após cirurgia
Subtrocantérica ou fratura atípicaHaste longa intramedular Haste longaVariável (3–4 semanas sem apoio)

A artroplastia de quadril — eleita “cirurgia do século” pela revista The Lancet desde 2007 — é a solução preferida para fraturas do colo do fêmur em idosos. O procedimento elimina o osso fraturado, que tenderia a necrosar pela interrupção do suprimento sanguíneo, e substitui por uma prótese que restaura a mobilidade quase imediatamente.


“A decisão de quando operar deve balancear a urgência clínica com a segurança cirúrgica. Uma equipe descansada, um paciente estabilizado e um ambiente preparado produzem melhores cirurgias.”

Fatores que podem justificar adiar ou acelerar a cirurgia

A definição do momento ideal para operar é sempre individualizada. Existem condições que podem tornar necessária uma espera maior para estabilização — e situações onde a urgência é real.

  • Insuficiência cardíaca descompensada: Exige otimização antes do procedimento. Risco cardíaco Goldman III associado a maior mortalidade.
  • Doença pulmonar grave: Pneumonia prévia ou DPOC grave pode requerer estabilização e ajuste anestésico.
  • Anticoagulação oral: Pacientes em uso de anticoagulantes precisam de janela segura para reverter efeito antes da cirurgia.
  • Demência e delirium: Comorbidade que aumenta mortalidade. Prevalência de demência em fraturas de quadril: até 23%. Atenção ao delirium pós-operatório.
  • Anemia grave: Anemia no pré-operatório é fator independente associado a mortalidade. Deve ser corrigida antes da cirurgia.
  • Admissão em fim de semana: Estudos mostram que pacientes admitidos aos sábados e domingos têm maior taxa de cirurgia tardia — principalmente por problemas burocráticos e de disponibilidade de equipe especializada.

O que familiares precisam saber

Quando um idoso chega ao pronto-socorro com suspeita de fratura de quadril, é natural que familiares sintam urgência extrema e pressionem pela cirurgia imediata. A evidência atual permite uma perspectiva mais tranquila — sem, contudo, minimizar a seriedade da situação.

Mensagem-chave para familiares

Se a equipe médica decidir aguardar algumas horas para estabilizar o paciente antes da cirurgia, isso é prática baseada em evidência — não negligência. O que aumenta o risco é a espera de vários dias sem justificativa clínica. Dentro da janela de 24 a 48 horas, os resultados são equivalentes.

A recuperação depende muito mais da mobilização precoce após a cirurgia do que da velocidade com que a cirurgia foi realizada. Equipes de fisioterapia, nutrição, geriatria e enfermagem trabalhando de forma coordenada fazem mais diferença do que horas a menos no pré-operatório.

Perguntas frequentes

Fratura de quadril é sempre cirúrgica?

Na grande maioria dos casos, sim. O tratamento conservador é indicado apenas para fraturas incompletas ou sem desvio, e mesmo assim com supervisão rigorosa. A cirurgia permite mobilização precoce e reduz drasticamente o risco das complicações associadas ao repouso prolongado.

Por que a mortalidade por fratura de quadril é tão alta?

Porque a fratura em si não é a causa da morte. São as complicações decorrentes da imobilidade e da fragilidade do paciente idoso: pneumonia, trombose, embolia pulmonar, infecção urinária e sepse. Por isso, a mobilização precoce pós-cirúrgica é o principal determinante de sobrevivência — e não apenas a velocidade da cirurgia.

Quando o idoso pode caminhar após a cirurgia?

Na maioria dos casos com prótese de quadril ou haste intramedular, o paciente é colocado de pé no dia seguinte à cirurgia e orientado a caminhar com andador. Casos mais complexos podem exigir 3 a 4 semanas sem apoio total do membro operado. A fisioterapia é iniciada no pós-operatório imediato.

Operar à noite ou no fim de semana é mais arriscado?

Estudos sugerem que a cirurgia noturna não aumenta necessariamente as complicações. Entretanto, a disponibilidade de equipes especializadas e de suporte hospitalar adequado pode ser menor nesses períodos — o que é um argumento para, quando possível, aguardar um momento mais propício dentro da janela de segurança.

Como prevenir a fratura de quadril em idosos?

As principais estratégias são: tratamento da osteoporose, avaliação e redução do risco de quedas (retirar tapetes, instalar corrimões e barras de apoio no banheiro), revisão de medicamentos que causam tontura, uso de calçados adequados, e exercícios de força e equilíbrio com supervisão. Manter animais de estimação longe do percurso do idoso também é importante — tropeções são uma causa frequente de quedas domésticas.

Conclusão: segurança acima de velocidade extrema

A evolução das evidências científicas aponta para uma visão mais nuançada sobre o timing cirúrgico na fratura de quadril do idoso. O objetivo deixou de ser “operar o mais rápido possível” e passou a ser “operar com segurança, dentro da janela adequada”.

Os dados são claros: cirurgia em até 24 horas tem resultados equivalentes à cirurgia em 6 horas. O que eleva o risco de forma significativa é o atraso superior a 48 a 72 horas — especialmente quando motivado por fatores burocráticos e não por necessidade clínica. No Brasil, o tempo médio entre a fratura e a cirurgia ainda é de quase uma semana em alguns centros, o que representa um problema real e urgente a ser resolvido.

Para cirurgiões, isso significa poder planejar o procedimento com mais segurança. Para familiares, significa confiar que uma espera de horas — com o objetivo de estabilizar o paciente — é escolha sábia, não demora. E para os sistemas de saúde, significa que o esforço deve se concentrar menos em operações de madrugada e mais em garantir fluxos hospitalares eficientes que operem o paciente dentro da janela de 48 horas, com todas as condições necessárias para um desfecho seguro.

Fontes e Referências

  1. Borges FK et al. HIP ATTACK trial: accelerated surgery vs. standard care in hip fracture. The Lancet, 2020. doi: 10.1016/S0140-6736(20)30058-1
  2. Demir T et al. Beyond the guidelines: outcomes of extremely delayed hip fracture surgery in elderly. BMC Musculoskelet Disord. 2025;26:794. PMC12357364
  3. Fenwick A et al. Early surgery? In-house mortality after proximal femoral fractures does not increase for surgery up to 48h after admission. Aging Clin Exp Res. 2023;35(6):1231
  4. Shin D, Tandi TE et al. Factors influencing hip fracture surgery after two days of hospitalization. Sci Rep. 2024;14:17466. PMC11286740
  5. Zhong H et al. Time to surgical treatment for hip fracture care. J Am Geriatr Soc. 2024. doi: 10.1111/jgs.19063
  6. Tanaka H et al. Surgery within two days of admission reduces complications and mortality of patients with trochanteric femur fractures. Tohoku J Exp Med. 2025;265(4):211–9
  7. Revista Brasileira de Ortopedia. Mortalidade em um ano de pacientes idosos com fratura do quadril tratados cirurgicamente num hospital do Sul do Brasil. 2016.
  8. Revista Pan-Amazônica de Saúde. Fratura de quadril no estado do Pará, Brasil: mortalidade oficialmente registrada e comorbidades na população idosa. 2024.
  9. Agência Brasil / Ministério da Saúde. Queda de idosos pode ter consequências graves. Junho, 2025.
  10. SciELO Brazil. Fratura de quadril em idosos: tempo de abordagem cirúrgica e sua associação quanto a delirium e infecção. Acta Ortopédica Brasileira.
  11. AMB / Diretrizes. Fratura do Colo Femoral no Idoso: Osteossíntese e Artroplastia. Diretrizes da Associação Médica Brasileira.

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