A cirurgia robótica deu mais um passo importante dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Após a oficialização da incorporação da prostatectomia radical assistida por robô em outubro de 2025, novas medidas regulatórias passaram a viabilizar, na prática, a expansão da tecnologia na rede pública brasileira.
Entre os avanços mais relevantes estão a criação de um código específico no SIGTAP — sistema responsável pela tabela de procedimentos do SUS — e a inclusão dos sistemas de cirurgia robótica na Relação Nacional de Equipamentos e Materiais Permanentes financiáveis pelo SUS (RENEM).
Na prática, as mudanças permitem que hospitais públicos e instituições filantrópicas possam registrar, financiar e estruturar programas de cirurgia robótica utilizando recursos públicos.
O que muda com o novo código SIGTAP?
A criação do código SIGTAP específico para a prostatectomia radical assistida por robô representa um marco operacional importante para o SUS.
O código define o modelo de registro do procedimento e estabelece os critérios de repasse financeiro às instituições que realizarem a cirurgia robótica em pacientes do sistema público.
Sem esse mecanismo, apesar da incorporação oficial da tecnologia, muitos hospitais ainda encontravam dificuldades práticas para viabilizar o procedimento dentro da estrutura administrativa e financeira do SUS.
A regulamentação foi formalizada em maio de 2026.
Inclusão na RENEM abre caminho para compra de robôs cirúrgicos
Outro avanço considerado estratégico aconteceu em abril de 2026, quando o Sistema de Cirurgia Robótica passou a integrar oficialmente a Relação Nacional de Equipamentos e Materiais Permanentes financiáveis pelo SUS (RENEM).
A medida permite que hospitais públicos e filantrópicos possam planejar a aquisição de plataformas robóticas utilizando recursos públicos destinados à modernização tecnológica da rede hospitalar.
Especialistas apontam que essa etapa era considerada fundamental para ampliar o acesso à cirurgia robótica no país.
Cirurgia robótica no câncer de próstata
A incorporação inicial no SUS contempla a prostatectomia radical assistida por robô para pacientes com câncer de próstata localizado ou localmente avançado.
Na prática clínica, a cirurgia robótica tem sido associada a benefícios como:
- maior precisão cirúrgica;
- menor sangramento;
- redução da necessidade de transfusões;
- menor tempo de internação;
- recuperação pós-operatória mais rápida;
- menor risco de complicações urinárias;
- redução da incidência de disfunção erétil em casos selecionados.
O procedimento já vinha sendo realizado no Brasil desde 2008, principalmente na rede privada e em centros especializados.
Processo de incorporação envolveu consulta pública
A trajetória regulatória até a incorporação passou por diferentes etapas técnicas conduzidas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC).
O processo incluiu:
- solicitação formal da incorporação em novembro de 2024;
- reunião inicial de avaliação em maio de 2025;
- consulta pública realizada entre junho e julho de 2025;
- recomendação favorável da CONITEC em agosto de 2025;
- publicação da Portaria SECTICS/MS nº 72 em outubro de 2025.
Segundo os envolvidos no processo, fatores como a experiência acumulada no Brasil com a plataforma robótica da Vinci e a existência de mais de 170 sistemas instalados no país contribuíram para a decisão favorável.
Expansão pode alcançar outras áreas da oncologia
O avanço da cirurgia robótica no SUS pode não se limitar ao câncer de próstata.
Em janeiro de 2026, foi protocolado novo pedido de incorporação da cirurgia robótica para o tratamento do câncer de reto no SUS.
A expectativa é de que a CONITEC realize nos próximos meses a análise inicial da demanda, seguida de eventual recomendação preliminar e abertura de consulta pública.
Debate envolve acesso, custo e formação profissional
Embora os avanços sejam vistos como históricos por parte da comunidade médica, especialistas ressaltam que a expansão da cirurgia robótica no SUS ainda enfrenta desafios importantes.
Entre eles estão:
- alto custo das plataformas;
- necessidade de treinamento especializado;
- manutenção tecnológica;
- estrutura hospitalar adequada;
- capacitação de equipes multidisciplinares.
Ao mesmo tempo, hospitais públicos e centros universitários avaliam que a incorporação pode acelerar o desenvolvimento tecnológico da cirurgia minimamente invasiva no Brasil.
Cirurgia robótica cresce na ortopedia e em outras especialidades
Além da urologia oncológica, a cirurgia robótica também vem avançando em áreas como:
- ortopedia;
- cirurgia do joelho;
- cirurgia de coluna;
- ginecologia;
- cirurgia digestiva;
- cabeça e pescoço.
Na ortopedia, plataformas robóticas vêm sendo utilizadas principalmente em artroplastias de joelho e quadril, com foco em precisão de alinhamento e personalização cirúrgica.
A criação do código SIGTAP e a inclusão dos sistemas robóticos na RENEM representam etapas consideradas decisivas para transformar a cirurgia robótica em uma realidade mais acessível dentro do SUS.
Embora a expansão ainda dependa de estrutura hospitalar, financiamento e capacitação profissional, especialistas avaliam que o cenário marca uma mudança importante na incorporação de tecnologias avançadas no sistema público de saúde brasileiro.