As fraturas da placa de crescimento (fise) representam cerca de 15% a 30% das lesões ósseas em crianças e adolescentes. O reconhecimento rápido dessas lesões é fundamental, pois erros diagnósticos podem resultar em fechamento precoce da fise, deformidades angulares e discrepâncias de comprimento dos membros.
Nesse contexto, a Classificação de Salter-Harris permanece como o sistema mais utilizado nos serviços de emergência, ambulatórios e centros de trauma ortopédico para orientar diagnóstico, prognóstico e tratamento.
Este guia de bolso resume os principais tipos de forma prática para consulta rápida durante o plantão.
O que é a fise?
A fise, também chamada de placa de crescimento, é uma estrutura cartilaginosa localizada entre a epífise e a metáfise dos ossos longos.
Ela é responsável pelo crescimento longitudinal do osso até o encerramento da maturidade esquelética.
Quando ocorre uma fratura nessa região, existe risco potencial de comprometimento do crescimento ósseo.
Como memorizar Salter-Harris?
Uma das formas mais utilizadas é a regra:
“SALTR”
- S = Straight Across
- A = Above
- L = Lower
- T = Through
- R = Rammed
Cada letra corresponde aos tipos I a V.
Tipo I – Separação pura da fise
Características
A linha de fratura atravessa exclusivamente a placa de crescimento.
Não há comprometimento da metáfise nem da epífise.
Lembrete visual
Linha reta atravessando apenas a fise.
Prognóstico
Excelente.
O risco de distúrbio do crescimento é baixo quando há tratamento adequado.
Exemplo clássico
Fratura distal do rádio em crianças.
Tipo II – Fise + Metáfise
Características
A fratura atravessa a fise e se estende para a metáfise.
É o tipo mais frequente, representando aproximadamente 75% das lesões de Salter-Harris.
Lembrete visual
Fise + fragmento metafisário.
Sinal clássico
Fragmento triangular metafisário conhecido como:
Sinal de Thurston-Holland
Prognóstico
Geralmente favorável.
Tipo III – Fise + Epífise
Características
A linha de fratura atravessa a fise e alcança a epífise.
A superfície articular fica comprometida.
Lembrete visual
Fratura intra-articular.
Prognóstico
Moderado.
Reduções anatômicas são essenciais para evitar sequelas articulares.
Exemplo comum
Fraturas do maléolo medial em pacientes pediátricos.
Tipo IV – Metáfise + Fise + Epífise
Características
A fratura cruza todas as estruturas:
- Metáfise
- Fise
- Epífise
Lembrete visual
Linha vertical atravessando todo o osso.
Prognóstico
Maior risco de fechamento precoce da fise.
Frequentemente requer tratamento cirúrgico.
Tipo V – Compressão da fise
Características
Ocorre esmagamento da placa de crescimento.
Muitas vezes o raio-X inicial parece normal.
Lembrete visual
Lesão por compressão.
Prognóstico
Pior entre os cinco tipos clássicos.
Alto risco de:
- Ponte óssea fisária
- Deformidades angulares
- Discrepância de comprimento
Atenção no plantão
Suspeitar diante de trauma axial importante com dor persistente na região da fise.
Resumo rápido para decorar
| Tipo | Estrutura acometida | Prognóstico |
|---|---|---|
| I | Apenas fise | Excelente |
| II | Fise + metáfise | Muito bom |
| III | Fise + epífise | Bom |
| IV | Metáfise + fise + epífise | Reservado |
| V | Compressão da fise | Ruim |
Diagrama simplificado
TIPO I
====|====
TIPO II
===/|====
TIPO III
====|\===
TIPO IV
===/|\===
TIPO V
===|||===
Compressão

Quando solicitar tomografia?
A tomografia computadorizada pode ser útil principalmente nos tipos III e IV quando há dúvida sobre:
- Desvio articular;
- Congruência da superfície articular;
- Planejamento cirúrgico.
Principais complicações
As complicações variam conforme o tipo de lesão, mas incluem:
- Fechamento precoce da fise;
- Deformidade angular;
- Encurtamento do membro;
- Incongruência articular;
- Artrose precoce.
Quanto maior o grau da classificação, maior tende a ser o risco de sequelas.
Dicas práticas para o plantonista
- Sempre compare com o lado contralateral quando houver dúvida.
- Radiografia normal não exclui lesão fisária.
- Dor localizada sobre a placa de crescimento merece investigação cuidadosa.
- Tipos III e IV exigem atenção especial devido ao envolvimento articular.
- O acompanhamento ambulatorial é fundamental para detectar alterações do crescimento.
A Classificação de Salter-Harris continua sendo uma das ferramentas mais importantes da ortopedia pediátrica. Seu domínio permite reconhecer rapidamente lesões da placa de crescimento, estimar o prognóstico e direcionar o tratamento adequado.
Para quem atua em pronto-socorro, ambulatório ou residência médica, conhecer os cinco tipos clássicos pode fazer a diferença entre uma recuperação completa e uma sequela permanente de crescimento.