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Entrevista especial no Dia do Ortopedista: Dr. João Maurício Barretto relembra mais de quatro décadas de trajetória na especialidade

Da residência médica nos anos 1980 à inteligência artificial, Dr. João Maurício Barretto relembra mudanças que marcaram a Ortopedia, a formação de especialistas, a atuação nas sociedades médicas e os aprendizados de mais de quatro décadas de profissão.

Em homenagem ao Dia do Ortopedista, o Portal da Ortopedia conversou com o Dr. João Maurício Barretto sobre uma trajetória que acompanha algumas das transformações mais importantes da especialidade no Brasil.

Formado em Medicina em 1983 e ortopedista desde 1986, ele viveu a transição das cirurgias abertas para a artroscopia, acompanhou a chegada da ressonância magnética, participou da formação de gerações de especialistas e ocupou posições de liderança na Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) e na Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT).

Na entrevista, ele fala ainda sobre o treinamento prático dos novos ortopedistas, inteligência artificial, robótica e um princípio que, para ele, permanece essencial mesmo diante de tanta tecnologia: o conhecimento médico continua sendo transmitido de profissional para profissional.

“Por volta do terceiro ano, eu já tinha me decidido pela Ortopedia”

Portal da Ortopedia — Dr. João Maurício, antes de falarmos sobre sua trajetória na Ortopedia, o que levou o senhor a escolher a Medicina e, posteriormente, a especialidade?

Dr. João Maurício Barretto — A Medicina sempre foi uma opção para mim desde criança. Minha família é predominantemente formada por advogados. Tenho uma família enorme, vários irmãos, e me lembro de vê-los estudando e pensar: “Vou ser tudo na vida, menos advogado”.

Sempre gostei muito de animais. Na infância, pensava em ser veterinário, e isso logo mudou para Medicina.

Quando pensei em ser médico, minha primeira opção de especialidade era Psiquiatria. Mas, quando entrei na faculdade, eu gostava muito de esporte — e gosto até hoje. As lesões traumáticas começaram a me interessar e, por volta do terceiro ano, eu já tinha me decidido pela Ortopedia.

Dali em diante, foi uma paixão sem cura e irreversível.

Entrei na faculdade em 1978, formei-me em 1983 e fiz residência em 1984 e 1985. Em janeiro de 1986, fiz o exame da SBOT e me tornei ortopedista de fato.

O Corpo de Bombeiros e o caminho até a cirurgia do joelho

Portal da Ortopedia — O senhor teve uma experiência muito particular no Corpo de Bombeiros, que acabou aproximando-o da cirurgia do joelho. Como isso aconteceu?

Dr. João Maurício Barretto — Eu sempre gostei muito de operar. Gostava de estar no centro cirúrgico para fazer qualquer coisa: doenças traumáticas, cirurgias ortopédicas eletivas, cirurgias de criança, coluna. Eu queria aprender o máximo possível.

Entrei para o Corpo de Bombeiros em 1986, logo depois da residência.

Naquela época, o hospital tinha uma estrutura razoável para atender os bombeiros. Era uma população basicamente jovem e havia muita lesão traumática do joelho. A própria atividade do bombeiro envolve risco de trauma e acidentes.

E, quando o bombeiro não estava trabalhando, estava jogando futebol.

As lesões do joelho eram, portanto, muito frequentes. Comecei a operar joelho com bastante intensidade porque existia uma grande demanda no hospital. Aos poucos, começamos a olhar para aquilo como uma especialização e seguimos esse caminho.

Da cirurgia aberta à artroscopia: uma mudança de paradigma

Portal da Ortopedia — No início da sua carreira, a realidade da Ortopedia era muito diferente. O que mais mudou desde os anos 1980?

Dr. João Maurício Barretto — Eu peguei justamente a transição da cirurgia do joelho predominantemente aberta para as cirurgias artroscópicas.

Vivi uma parte da época em que se fazia tudo aberto e depois acompanhei a mudança para a artroscopia, inclusive nas lesões ligamentares. Foi uma mudança de paradigma muito importante.

Outra transformação que acompanhei de perto foi a evolução dos exames de imagem, especialmente o aparecimento da ressonância magnética.

O potencial diagnóstico aumentou muito, de uma maneira menos invasiva.

Depois vieram tantas outras mudanças na Ortopedia e na Medicina de forma geral: cirurgias minimamente invasivas, robótica e outras tecnologias. Foi uma fase bastante animada em termos de novidades e novos horizontes.

O estágio no Hospital for Special Surgery

Portal da Ortopedia — O senhor teve a oportunidade de estagiar com grandes referências internacionais, inclusive no Hospital for Special Surgery, em Nova York. O que essa experiência trouxe para sua formação?

Dr. João Maurício Barretto — O estágio que fiz no Hospital for Special Surgery foi no início da década de 1990, com uma grande referência da cirurgia do joelho e da artroplastia naquele período.

Eles estavam muito à frente de nós naquele momento.

Foi um estágio que me marcou muito e me trouxe diversas linhas de trabalho. Quando voltamos ao Brasil, começamos a trabalhar com artroplastia de uma forma muito intensa, organizada e estruturada.

O Hospital for Special Surgery foi uma referência importante no desenvolvimento da artroplastia moderna do joelho, especialmente no final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

Ter proximidade com grandes nomes da Ortopedia mundial teve um impacto enorme na minha formação.

“Sempre que chegava a um serviço, eu queria me envolver com os residentes”

Portal da Ortopedia — Na sua trajetória, a formação de novos ortopedistas teve um papel importante, especialmente na Santa Casa do Rio. O que o senhor aprendeu durante esses anos?

Dr. João Maurício Barretto — Minha residência foi no Hospital Antônio Pedro. Aquilo era uma verdadeira escola de formação de pessoas, então minha origem está muito ligada a esse espírito.

Quando me formei e comecei a trabalhar em outros hospitais, sempre procurei manter proximidade com os residentes. Sempre que entrava em um serviço, queria me envolver com o treinamento deles.

Quando fui para a Santa Casa, em 1992, restauramos a residência de Ortopedia, que estava parada havia muitos anos.

Ali tivemos a oportunidade de formar pessoas dentro da nossa visão do que deveria ser um ortopedista, em termos éticos, profissionais e técnicos.

Também criamos um R4 em cirurgia do joelho, que foi bastante pioneiro no Rio de Janeiro. Recebíamos ortopedistas que já haviam concluído a residência para treinamento específico em cirurgia do joelho.

Apesar das condições materiais muito precárias, fazíamos uma Medicina de muito boa qualidade, com poucos recursos, mas reconhecidamente muito útil para a população do Rio de Janeiro e para a classe médica carioca.

O que transforma um médico em um grande ortopedista?

Ao longo da conversa, Dr. João Maurício relaciona a formação de um especialista a fatores que vão além do domínio técnico. Ética, responsabilidade profissional, treinamento consistente e convivência com médicos mais experientes aparecem repetidamente em sua trajetória.

Para ele, mesmo com acesso cada vez maior à informação, existe uma parcela da formação que não pode ser substituída por livros, vídeos ou ferramentas digitais: a experiência prática transmitida entre gerações.

Essa visão também ajuda a explicar sua dedicação às atividades educacionais e às sociedades médicas.

Da educação médica à liderança na SBOT e na SBCJ

Portal da Ortopedia — O senhor teve participação ativa nas sociedades médicas e chegou às presidências da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho e da SBOT. O que o levou a dedicar parte da carreira a esse trabalho?

Dr. João Maurício Barretto — Acho que vem muito dessa filosofia de treinamento.

Treinar pessoas sempre me aproximou de atividades didáticas, congressos e cursos.

Quando participei da SBOT-RJ, inicialmente como secretário, na década de 1990, fizemos um trabalho muito importante no treinamento dos residentes do Rio de Janeiro. Conseguimos reunir diferentes serviços em um treinamento conjunto.

Criamos cursos teóricos, avaliações e também cursos avançados voltados para ortopedistas já formados.

Depois veio a Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho. Quando assumi sua presidência, em 2005, era uma sociedade já muito estruturada, com grandes congressos, intensa atividade científica e dimensão nacional.

Foi um período de muito trabalho, mas também de muita recompensa, que guardo com muito carinho.

Presidência da SBOT em um período de crise

Portal da Ortopedia — Quando assumiu a presidência da SBOT, em 2017, quais eram os principais desafios?

Dr. João Maurício Barretto — Tudo aconteceu num crescendo. Uma coisa levou à outra.

Quando deixei a presidência da SBCJ, eu já tinha passado por uma sociedade muito grande e estruturada, tanto do ponto de vista científico quanto administrativo. Isso me fez sentir preparado para eventualmente assumir a presidência da SBOT, que tinha uma dimensão ainda maior.

Quando assumimos, em 2017, o país atravessava um período de crise econômica. Os patrocínios praticamente tinham desaparecido.

Conduzir a SBOT naquele ambiente foi um grande desafio, mas considero que conseguimos cumprir aquela missão com um resultado muito positivo.

O maior desafio continua sendo o treinamento

Portal da Ortopedia — Formação, educação continuada e defesa profissional atravessam toda a sua carreira. O que precisa ser feito para fortalecer o ortopedista brasileiro?

Dr. João Maurício Barretto — Eu acho que o grande desafio da Ortopedia hoje continua sendo o treinamento.

Mas o treinamento mudou.

Antigamente, aulas teóricas e conferências de grandes ortopedistas eram oportunidades muito difíceis de acessar. Hoje, pela internet e pelo telefone, em poucos minutos você consegue acessar uma quantidade enorme de conteúdo.

Por isso, o treinamento atual se baseia cada vez mais no hands-on, no treinamento prático.

Você faz uma cirurgia em cadáver ao lado de um colega que domina aquela técnica, em ambiente controlado, antes de realizá-la no paciente.

Isso vale tanto para a residência médica quanto para cursos avançados. Não é apenas saber a teoria. É saber fazer — primeiro em ambiente controlado e, depois, aplicar aquele conhecimento com segurança no paciente.

Inteligência artificial: “os recursos são infinitos”

Portal da Ortopedia — Inteligência artificial, robótica, navegação e novas tecnologias estão transformando a Medicina. Estamos diante de uma nova revolução na Ortopedia?

Dr. João Maurício Barretto — Acho que sim.

Principalmente quando falamos de inteligência artificial. Hoje, a facilidade para se manter atualizado sobre um assunto específico em questão de minutos é muito grande.

Os recursos da inteligência artificial para pesquisa, treinamento e atualização são enormes. E tudo isso está disponível no telefone.

Não é raro estarmos no consultório e, enquanto o paciente faz uma radiografia, aproveitarmos aquele intervalo para revisar aspectos do caso clínico. Quando ele volta, você está muito mais preparado teoricamente em questão de minutos.

Isso mudou muito a prestação de serviço que podemos oferecer ao paciente.

Professores, colegas e uma geração que marcou a carreira

Portal da Ortopedia — Depois de mais de quatro décadas de profissão, existe algum paciente, professor ou momento da carreira que considera inesquecível?

Dr. João Maurício Barretto — São muitos.

Tive a oportunidade de conviver com grandes professores do Rio de Janeiro. Pessoas que me influenciaram tanto do ponto de vista médico quanto ético e moral.

Também convivi com grandes ortopedistas nas sociedades médicas.

Na cirurgia do joelho, pude estar próximo de uma geração extraordinária da especialidade brasileira. Na SBOT nacional, quando você chega à presidência, passa a entender de outra maneira o tamanho e a grandeza da Ortopedia brasileira.

Você pode ter uma ideia antes, mas, quando ocupa aquela cadeira e exerce o mandato, sai dali com uma visão da Ortopedia diferente da que tinha quando entrou.

Sou muito agradecido por ter vivido essa experiência.

“O ensino da Medicina continua sendo uma ciência de homem a homem”

Portal da Ortopedia — Se pudesse conversar hoje com aquele jovem médico que começava a residência em 1984, que conselho daria a ele? E qual mensagem deixaria para a nova geração?

Dr. João Maurício Barretto — Se eu fosse conversar comigo mesmo, acho que traçaria mais ou menos a mesma trajetória, com poucas mudanças.

Mas gostaria principalmente de deixar um recado para o jovem ortopedista.

Com toda essa modernidade, o ensino da Medicina continua sendo uma ciência de homem a homem. É a transmissão de conhecimento do cirurgião mais antigo para o mais jovem.

Isso é algo que você não encontra nos livros, não está na inteligência artificial e não está no robô.

E isso requer dedicação.

A Medicina também é uma profissão, é a forma como sustentamos nossa família, mas a dedicação à especialidade, ao treinamento e ao crescimento profissional continua sendo fundamental.

Meu conselho ao jovem ortopedista é: faça uma residência em um bom lugar e aproveite ao máximo a sua residência.

Chegue de manhã, saia à noite, folgue pouco, trabalhe muito.

Essa é a receita para o sucesso.

Uma trajetória que acompanha a transformação da Ortopedia

A história profissional do Dr. João Maurício Barretto atravessa momentos importantes da evolução da especialidade: a expansão da artroscopia, o desenvolvimento da artroplastia de joelho, a chegada da ressonância magnética, o fortalecimento das sociedades médicas e, agora, a incorporação da inteligência artificial e da robótica.

Mas, ao olhar para mais de quatro décadas de profissão, sua mensagem para a nova geração não está centrada em uma tecnologia específica.

Está na formação.

Para ele, as ferramentas mudam, o acesso à informação se amplia e a Medicina avança. Entretanto, experiência, dedicação, ética e convivência com profissionais mais experientes continuam formando a base sobre a qual uma carreira médica é construída.

Entrevista concedida ao Portal da Ortopedia, em homenagem ao Dia do Ortopedista.

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