Portal da Ortopedia é um oferecimento Shopmedical
close

Mulheres na Ortopedia: SBOT-RJ realizou um encontro histórico sobre representatividade, equidade e futuro da especialidade

Encontro da SBOT-RJ reúne médicas, residentes e estudantes para discutir desafios, maternidade, representatividade e o avanço da presença feminina na ortopedia brasileira.

A SBOT-RJ realizou, neste mês, o evento Mulheres na Ortopedia, marcando um dos encontros mais significativos já promovidos pela regional. Médicas de diversas áreas, residentes e estudantes reuniram-se para discutir desafios, vitórias e caminhos de transformação dentro de uma especialidade ainda marcada por desigualdades estruturais.

Durante a cobertura, quatro vozes se destacaram pela força de suas histórias e pela profundidade das reflexões que trouxeram ao debate: Dra. Nathália, Dra. Julia Gaio, Lorraine Andrade, e Dra. Fernanda Gomes, todas integrantes do movimento que está transformando a realidade da ortopedia brasileira: a AMOB — Mulheres Ortopedistas do Brasil.

A origem da AMOB e a luta pela representatividade — Dra. Nathália Sundin

A ortopedista Dra. Nathália Sundin explicou que a AMOB nasceu durante a pandemia como uma resposta espontânea à solidão e à falta de referências femininas na especialidade:

“A pandemia foi um catalisador. Percebemos que havia muito mais mulheres vivendo as mesmas questões e que precisávamos de um espaço institucional de apoio e representatividade.”

Ela destaca que a ortopedia ainda carrega uma imagem historicamente masculina:

“Quando se pensa em ortopedista, a imagem automática é a de um homem. Isso está no imaginário dos pacientes e também dos colegas.”

Esse padrão influencia convites, posições de liderança e visibilidade científica:

“Há muitas mulheres enviando trabalhos para congressos, mas poucas são chamadas para o palco. Não podemos aparecer só para falar de diversidade. Temos total capacidade para discutir próteses, trauma e o que há de mais avançado na pesquisa.”

Sobre sua própria história na especialidade, ela recorda com carinho:

“Quando eu furei um osso pela primeira vez, fui fisgada. Meu pai dizia: ‘quando você fura um osso, você vicia’ — e é verdade.”

Maternidade e a falsa ideia de “incompatibilidade” — Dra. Julia Gaio

A ortopedista Dra. Julia Gaio trouxe reflexões profundas sobre como a maternidade é tratada dentro da ortopedia e da medicina como um todo:

“Engravidar não é um problema da mulher — é um problema do sistema. Mas vira um problema dela quando tenta se inserir num ambiente ainda dominado pelo sexo masculino.”

Ela lembrou que muitas colegas adiam ou renunciam à maternidade por medo de represálias:

“A cobrança é tão grande que algumas nem cogitam ter filhos. E isso não acontece só na medicina. É estrutural.”

Ao falar sobre a AMOB, enfatiza o poder da rede de apoio:

“Na AMOB eu encontrei iguais. Colegas que entendiam minhas dores e minhas dúvidas. Já acolhemos residentes que queriam desistir porque estavam esgotadas ou sendo perseguidas.”

Sobre meritocracia, ela é direta:

“A meritocracia existe, mas sempre vem misturada com outras coisas. Por isso precisamos nos organizar e não esperar eternamente por um convite.”

Seu recado final às jovens médicas resume o espírito do evento:

“Resiliência e esperança. Não existe problema na diversidade.”

A visão da nova geração — Lorraine Andrade, acadêmica de medicina

Representando a força estudantil, Lorraine Andrade relembrou como foi participar do evento após um dia exaustivo de cirurgias:

“Foi extremamente interessante. O clima do evento foi acolhedor, e ouvir outras profissionais contando suas histórias foi muito importante para mim.”

Ela já conhecia a AMOB, mas nunca havia participado de um encontro:

“Valeu muito o esforço para estar aqui. Foi realmente muito proveitoso.”

O encontro despertou reflexões sobre sua trajetória futura:

“Quero continuar na área. O evento me fez pensar mais no futuro, inclusive em mestrado e doutorado.”

E encerra com o entusiasmo de quem se descobriu parte de algo maior:

“Para mim, foi ótimo. Fui chamada de repente, mas adorei participar.”

A MOB como mentoria, acolhimento e ponte para o crescimento — Dra. Fernanda Gomes

A ortopedista Dra. Fernanda Gomes, representante da AMOB, explicou o funcionamento da associação e sua importância para mulheres em diferentes fases da formação:

“A AMOB é um coletivo idealizado pela Camila. Nosso objetivo é criar um ambiente seguro para compartilhar experiências. Temos grupos onde discutimos questões da prática diária.”

Ela destacou a importância das ações de mentoria, que hoje ajudam desde estudantes até residentes:

“Pegamos meninas da graduação que querem fazer ortopedia e mostramos que é possível. Quando entram na residência, acompanhamos para que elas consigam obter o título.”

Fernanda também abordou o avanço dos tratamentos ortobiológicos e a contribuição feminina para a adesão dos pacientes:

“É preciso explicar com calma como funcionam as terapias biológicas. A mulher tem um trato mais humanizado, e isso melhora muito a adesão ao tratamento.”

Sobre maternidade e equidade, afirmou:

“Ainda há serviços que perguntam se pretendemos engravidar em curto prazo. Isso precisa mudar. Ampliar a licença paternidade é fundamental para justiça reprodutiva.”

E deixou uma mensagem inspiradora às futuras ortopedistas:

“O cenário é desafiador, mas vale a pena. A AMOB ajuda muito nisso. Eu encorajo todas as meninas a vir. Não me arrependo da minha escolha — elas também vão se apaixonar.”

Um movimento que une gerações e transforma a ortopedia brasileira

O evento Mulheres na Ortopedia mostrou que mudança estrutural não nasce apenas de políticas, mas de encontros como este — que unem histórias, dores, vitórias e estratégias de transformação.

As falas de Natália, Juliana, Lorraine e Fernanda revelam diferentes perspectivas, mas uma mensagem comum:

  • A ortopedia não é um território exclusivo.
  • A mulher tem lugar — e está construindo cada vez mais espaços.
  • Redes como a AMOB são fundamentais para acolher, orientar e abrir portas.

O futuro da especialidade passa pela pluralidade, pela equidade e pela força de quem ousa ocupar espaços historicamente negados.

E, como disseram as próprias entrevistadas, toda mulher que chegar agora encontrará um caminho pavimentado por outras que se recusaram a desistir.

Consulte seu médico!

O Portal da Ortopedia recomenda consultar um profissional especializado em caso de dúvidas sobre qualquer informação de nosso site.

Tags

Pessoas

Últimos conteúdos