Em 17 de outubro de 2023, durante o jogo Brasil x Uruguai pelas Eliminatórias da Copa, Neymar sofreu entorse do joelho esquerdo que confirmou ruptura do ligamento cruzado anterior e do menisco. Ele deixou o campo chorando — uma imagem que resumia a gravidade do que havia acontecido dentro da articulação.
O médico da Seleção, Dr. Rodrigo Lasmar, confirmou que houve ruptura no ligamento e em dois meniscos — interno e externo — além de estiramentos em ligamentos periféricos. O procedimento cirúrgico foi necessário para correção de todas essas lesões, com reconstrução do ligamento cruzado.
A cirurgia foi realizada em novembro de 2023 no hospital Mater Dei, em Belo Horizonte. Não foi uma operação simples: tratar LCA e menisco simultaneamente exige planejamento cirúrgico detalhado e um período de recuperação maior do que cada lesão demandaria isoladamente.
O que é a ruptura do LCA — e por que é tão grave no futebol
O LCA é o ligamento cruzado anterior do joelho, responsável pela estabilidade anterior e anterolateral da articulação. Ele é fundamental em atividades com muita rotação de joelho, paradas bruscas e mudanças de direção — movimentos que fazem parte do futebol em todos os lances.
O LCA rompido não cicatriza sem cirurgia. A reconstrução é realizada com enxerto de tendão — geralmente retirado do próprio paciente. As técnicas mais utilizadas atualmente usam tendão patelar, isquiotibial ou do quadríceps, fixados no fêmur e na tíbia com parafusos especiais, por meio de artroscopia — procedimento minimamente invasivo, com pequenas incisões e câmera intra-articular.
Quando o menisco é lesionado junto ao LCA — como aconteceu com Neymar — o quadro se torna ainda mais complexo. O menisco é uma estrutura de fibrocartilagem em formato de “C” localizada entre o fêmur e a tíbia, responsável por absorver choque e distribuir carga na articulação. A previsão médica para lesões combinadas de LCA e menisco é de afastamento que pode variar de seis a dez meses, dependendo da evolução de cada caso.
As fases da recuperação: do pós-operatório ao campo
A primeira etapa, logo após a cirurgia, concentra-se no controle da dor e do inchaço, com repouso e uso de muletas. Progressivamente, inicia-se a fisioterapia para restaurar a amplitude de movimento do joelho de forma passiva. Posteriormente, o foco se volta para o fortalecimento gradual dos músculos que sustentam a articulação, como o quadríceps e os isquiotibiais.
Após a cirurgia, a perda de musculatura e de movimento articular é significativa, levando à aderência de algumas estruturas. A única forma de recuperar esse movimento é colocando carga progressiva no tecido — o que pode ser desconfortável. Uma das intervenções usadas na reabilitação de Neymar foi a eletroestimulação da musculatura do quadríceps, uma das mais afetadas no pós-operatório — processo necessário para acelerar o ganho de força e massa muscular.
Atletas profissionais de alto rendimento muitas vezes conseguem cumprir todos os requisitos para o retorno esportivo em torno de sete meses após a cirurgia — mas essa não costuma ser a realidade para a maioria dos pacientes fora do contexto de alta performance, que demoram de 9 a 12 meses ou mais.
A previsão do Dr. Lasmar, logo após a cirurgia de Neymar, era de retorno ao futebol em agosto de 2024 — cumprindo pelo menos nove meses de recuperação, sem queimar etapas para evitar risco desnecessário de nova lesão.
807 dias de luta — e uma segunda cirurgia no caminho
O retorno de Neymar não foi linear. Após voltar aos gramados, o atacante ainda passou por períodos de recuperação física antes de sofrer novas lesões musculares. As dores na coxa tornaram-se recorrentes entre 2024 e 2025.
No final de 2025, veio mais um obstáculo. Neymar foi submetido a artroscopia no joelho esquerdo, em Nova Lima (MG), para tratar lesão no menisco medial — novamente operado pelo Dr. Rodrigo Lasmar. O procedimento durou cerca de uma hora e meia, sem complicações. O atleta retomou a reabilitação imediatamente após a alta.
Mesmo assim, o camisa 10 não parou. Desde o retorno ao Santos, em janeiro de 2025, Neymar acumulou 45 jogos, 18 gols e nove assistências — números que convenceram Ancelotti a incluí-lo entre os 26 convocados para o Mundial.
O que muda na prática clínica
A trajetória de Neymar traz ensinamentos concretos para qualquer médico, fisioterapeuta ou paciente que enfrenta uma lesão de LCA:
- Preparação pré-cirúrgica faz diferença
A fisioterapia pré-cirúrgica ajuda a melhorar a dor, o edema e a limitação de movimento antes da operação, minimizando a perda de musculatura e acelerando a recuperação pós-operatória. Chegar à cirurgia com musculatura fortalecida é um dos maiores preditores de sucesso.
- Nutrição é parte do protocolo
Muitos pacientes com lesão de LCA são atleticamente ativos e possuem alto gasto calórico diário, que despenca após a cirurgia. Manter a rotina alimentar sem ajuste tende a gerar ganho de peso rápido, o que dificulta o retorno esportivo. O acompanhamento nutricional deve começar junto com a fisioterapia.
- Condicionamento cardiovascular não pode ser negligenciado
No momento de retornar ao futebol, o paciente precisa ter fôlego para suportar a rotina de treinos e competições — e muitos fisioterapeutas se concentram exclusivamente no joelho, esquecendo essa dimensão.
- A progressão é por critério clínico, não por calendário
A passagem pelas diversas fases da reabilitação é guiada mais por critérios clínicos do que por prazos fixos. Cada paciente tem uma resposta biológica diferente — e forçar etapas eleva o risco de recidiva.
Impacto para o paciente
A história de Neymar tem valor clínico real para quem passa pelo mesmo diagnóstico. As estatísticas são favoráveis: mais de 80% dos pacientes retornam ao esporte em bom nível após a cirurgia de reconstrução do LCA. Mas o resultado depende diretamente da qualidade do acompanhamento e do comprometimento do paciente com cada fase do protocolo.
Ver um atleta de 34 anos, com histórico de múltiplas lesões, voltar a marcar gols e ser convocado para uma Copa do Mundo é uma evidência clínica de que a medicina esportiva avançou — e que o prognóstico de quem lesiona o LCA, quando bem tratado, é genuinamente favorável.
Desafios e limitações
A recuperação de Neymar também expõe os limites do processo. Mesmo após o retorno, lesões musculares recorrentes na coxa se tornaram um padrão entre 2024 e 2025 — algo comum em atletas que retornam de grandes lesões ligamentares, quando a musculatura periarticular ainda não atingiu o equilíbrio ideal entre força e flexibilidade.
Além disso, o caso do próprio Neymar e de outros jogadores da Seleção reforça que não há garantia de retorno para todos. O zagueiro Éder Militão e os atacantes Rodrygo e Estêvão sofreram lesões graves nas últimas semanas e não puderam ser convocados para a Copa do Mundo 2026. Cada organismo responde de forma diferente — e o calendário do futebol de alto rendimento raramente espera pela biologia.
Tendências na reabilitação de LCA no esporte de alto rendimento
A ciência da reabilitação ortopédica esportiva avançou muito na última década. As principais tendências aplicadas em atletas de elite incluem:
Critérios funcionais para liberação — testes de força isocinética, agilidade e controle neuromuscular substituíram os prazos fixos como parâmetros de alta esportiva.
Reabilitação acelerada e controlada — protocolos individualizados baseados em dados de força e simetria entre o membro operado e o contralateral.
Biológicos e medicina regenerativa — uso de PRP (plasma rico em plaquetas) e fatores de crescimento como suporte ao processo cicatricial dos enxertos, ainda em estudo mas com aplicação crescente.
Monitoramento contínuo por GPS e sensores — atletas de alto rendimento têm carga de treino e padrão de movimento monitorados em tempo real para identificar compensações e prevenir novas lesões.
A convocação de Neymar para a Copa do Mundo 2026 é, antes de ser uma notícia esportiva, um estudo de caso em medicina esportiva. Dois anos e sete meses após uma das lesões mais graves do joelho no futebol — ruptura combinada de LCA e dois meniscos —, o jogador voltou a competir em alto nível e foi considerado apto para o maior torneio do mundo.
O que tornou isso possível não foi apenas talento ou determinação. Foi cirurgia artroscópica de precisão, fisioterapia progressiva e criteriosamente conduzida, e um longo processo de reconstrução física. O mesmo processo disponível para qualquer paciente — dentro e fora dos gramados.
FAQ
O que é a ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA)?
É o rompimento total ou parcial do ligamento que estabiliza o joelho, impedindo que a tíbia deslize para frente em relação ao fêmur. É uma das lesões mais comuns em esportes de alto impacto como futebol, basquete e vôlei.
A ruptura do LCA tem cura sem cirurgia?
Em atletas ativos e em casos de ruptura total, a cirurgia é a indicação padrão. O LCA rompido não cicatriza por conta própria. O tratamento conservador pode ser considerado apenas em casos específicos, como pacientes idosos ou com baixo nível de atividade física.
Quanto tempo leva a recuperação do LCA?
Para pacientes comuns, de 9 a 12 meses. Para atletas de alta performance com suporte especializado, o retorno pode ocorrer entre 7 e 9 meses — desde que todos os critérios clínicos de força, estabilidade e controle neuromuscular sejam atingidos.
O que é a lesão de menisco e como ela complica a recuperação do LCA?
O menisco é uma estrutura de fibrocartilagem que absorve impacto dentro do joelho. Quando lesionado junto ao LCA, o tempo de recuperação aumenta e o protocolo de reabilitação precisa ser adaptado para respeitar a cicatrização de ambas as estruturas.
Qual é a chance de retornar ao esporte após cirurgia de LCA?
Mais de 80% dos pacientes que seguem corretamente o protocolo de reabilitação retornam ao esporte em bom nível competitivo após a cirurgia de reconstrução do LCA.
Neymar se recuperou completamente do LCA?
Neymar passou por duas intervenções cirúrgicas no joelho esquerdo — a primeira em novembro de 2023 (LCA + dois meniscos) e a segunda em dezembro de 2025 (menisco medial). Após as cirurgias e reabilitação, retornou ao futebol e foi convocado para a Copa do Mundo 2026.
Leituras relacionadas
– Ruptura do LCA: causas, tratamentos e prevenção
– Como funciona a cirurgia de ligamento cruzado anterior
– Lesão de menisco: quando operar e quando tratar sem cirurgia
– Retorno ao esporte após cirurgia de joelho: o que a ciência diz
– PRP no tratamento de lesões musculoesqueléticas: evidências atuais
https://placar.com.br/?p=273460
https://ligamentocruzado.com.br/lesao-do-lca/lesao-do-ligamento-cruzado-anterior/
https://daqui.opopular.com.br/editorias/esporte/neymar-est%C3%A1-fora-da-copa-am%C3%A9rica-diz-m%C3%A9dico-da-sele%C3%A7%C3%A3o-1.2749256
https://www.metropoles.com/esportes/neymar-passou-65-do-ciclo-para-copa-do-mundo-de-2026-lesionado
https://ligamentocruzado.com.br/pos-operatorio/10-dicas-para-recuperacao/
https://ligamentocruzado.com.br/lesao-do-lca/lesao-do-ligamento-cruzado-anterior/
https://portaldaortopedia.com.br/cirurgia-ligamento-cruzado-anterior-lca/
https://www.olympics.com/pt/noticias/copa-do-mundo-2026-lista-convocados-brasil