Durante sua passagem pelo Brasil para o evento HSM+, em São Paulo, o médico e pesquisador Peter Attia, referência global em longevidade e autor do best-seller Outlive, reforçou uma mensagem direta: “Exercício físico é provavelmente a ferramenta mais importante para prevenir demência.”
Em entrevista ao jornal O Globo, Attia, formado pela Stanford University e fundador da Early Medical, destacou como a prevenção — não apenas o tratamento — é o coração da chamada “Medicina 3.0”. O objetivo, segundo ele, é manter distância das quatro grandes causas de mortalidade: doenças cardiovasculares, câncer, doenças metabólicas e neurodegenerativas.
Por que o exercício é a arma mais poderosa contra demência
Attia explica que o cérebro envelhece melhor quando o corpo se mantém ativo. O movimento regular melhora:
• saúde vascular cerebral
• controle da pressão arterial
• sensibilidade à insulina
• oxigenação
• estabilidade metabólica
• redução de inflamação sistêmica
Segundo ele, exercícios dinâmicos — especialmente aqueles que combinam movimento, coordenação e tomada rápida de decisão — são os mais eficazes para proteger o cérebro.
“O melhor exercício para prevenir doenças cognitivas é aquele que engaja corpo e cérebro ao mesmo tempo.”
Peter Attia
Por isso, atividades como dançar, esportes com raquete e modalidades que exigem reação rápida oferecem mais benefícios cognitivos do que palavras-cruzadas, sudoku ou exercícios repetitivos.
Proteína diária: por que Attia defende metas altas
Durante a entrevista, o especialista também falou sobre um dos temas mais polêmicos da longevidade: a ingestão de proteína.
Para ele, a meta ideal é:
2g de proteína por quilo de peso corporal por dia, quando possível.
A justificativa é simples: o corpo não “guarda” aminoácidos. Sem reposição diária adequada, a capacidade de sintetizar massa muscular — essencial para prevenir sarcopenia, quedas e fragilidade — fica prejudicada.
“É difícil comer proteína em excesso. O risco maior é comer menos do que o necessário e prejudicar sua massa muscular.”
Suplementos só são necessários em rotinas muito corridas. Fora isso, comida de verdade continua sendo o melhor caminho.
Testes genéticos x histórico familiar: qual pesa mais?
Attia argumenta que, para muitas doenças, a saúde dos pais diz mais do que testes genéticos isolados.
Algumas doenças hereditárias não aparecem claramente em exames, já que envolvem múltiplos genes e interações ambientais. Assim, saber como pais e avós envelheceram — cardiopatias, câncer, declínio cognitivo — pode guiar melhor o cuidado preventivo.
“O histórico familiar, quando disponível, traz mais informação do que muitos testes genéticos.”
No entanto, ele alerta: hábitos importam.
Um pai fumante que teve câncer de pulmão, por exemplo, não indica risco hereditário direto para um filho que nunca fumou.
Síndrome metabólica importa mais que obesidade
Outro ponto central da visão do médico é a diferença entre obesidade e saúde metabólica.
O foco deve ser corrigir:
- resistência à insulina
- inflamação
- pressão arterial
- triglicerídeos elevados
- gordura visceral
Em suas palavras:
“Ser um pouco obeso, mas metabolicamente saudável, é menos perigoso do que ser magro com síndrome metabólica.”
A base para isso: exercício, alimentação, sono e controle do estresse.
Álcool, células cerebrais e risco de câncer
Attia reforça que evidências recentes mostram que até níveis moderados de álcool podem aumentar o risco de câncer e prejudicar a saúde cerebral.
“O impacto mais forte do álcool é sobre demência. O consumo moderado pode não ser tão inofensivo quanto pensávamos.”
E o fator emocional do envelhecer?
Entre treinos, alimentação e suplementos, Attia admite que seu maior desafio é outro:
“O mais difícil é manter equilíbrio emocional e lidar com preocupações. Encontrar felicidade é parte essencial da saúde.”
O que essa visão muda na ortopedia e na saúde musculoesquelética?
Muito do que Attia defende encontra respaldo direto na ortopedia moderna:
• prevenir perda muscular é prevenir quedas
• saúde metabólica protege cartilagem e ossos
• exercício é remédio para articulações, coluna e cérebro
• movimento regular reduz sarcopenia e fragilidade
• esportes complexos melhoram equilíbrio e reduzem risco de fraturas
Ou seja: longevidade e mobilidade caminham juntas.
Fonte: O Globo.