A retomada do uso de patinetes elétricos nas grandes cidades brasileiras voltou a acender um alerta entre médicos ortopedistas e especialistas em trauma. Embora vistos por muitos usuários como uma alternativa prática de mobilidade urbana e lazer, os equipamentos estão associados a um número crescente de acidentes com lesões graves, principalmente em punhos, tornozelos e cabeça.
Dados reunidos pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), em conjunto com análises da Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte (SBRATE), mostram que os traumas relacionados aos patinetes seguem um padrão semelhante ao observado em outros países: quedas espontâneas, perda de equilíbrio e colisões em vias urbanas mal conservadas lideram as ocorrências.
Pequenas rodas e alta velocidade aumentam risco de acidentes
Segundo especialistas, um dos principais problemas está na própria estrutura do equipamento. As rodas pequenas dos patinetes elétricos possuem baixa capacidade de absorção de impacto e podem travar facilmente em:
- buracos
- rachaduras
- desníveis
- pisos irregulares
- trilhos urbanos
Esse mecanismo favorece o chamado “efeito catapulta”, quando o usuário é lançado para frente após uma parada brusca do equipamento.
Além disso, muitos modelos atingem velocidades próximas de 25 km/h a 30 km/h, o que potencializa o risco de fraturas e traumatismos em quedas.
Punhos, crânio e tornozelos concentram a maioria das lesões
A análise dos atendimentos ortopédicos mostra que os membros superiores são as regiões mais atingidas nos acidentes com patinetes.
Principais lesões observadas
Membros superiores — cerca de 30% dos casos
As fraturas de punho e antebraço aparecem entre os traumas mais comuns.
Isso ocorre porque, instintivamente, a vítima tenta apoiar as mãos no chão para amortecer a queda.
As lesões mais frequentes incluem:
- fratura do rádio distal
- fraturas do antebraço
- luxações
- lesões ligamentares
Cabeça e face — entre 20% e 25% dos registros
Os traumatismos cranioencefálicos (TCE) representam os quadros mais graves.
Segundo ortopedistas e especialistas em trauma, a ausência do capacete aumenta significativamente o risco de:
- hemorragias
- fraturas faciais
- concussões
- sequelas neurológicas
Em acidentes de maior impacto, o risco de morte também aumenta.
Membros inferiores
Fraturas de tornozelo, joelho e lesões ligamentares também são recorrentes, principalmente em colisões laterais ou tentativas inadequadas de frear o equipamento usando os pés.
Falta de infraestrutura agrava cenário
Especialistas apontam que a infraestrutura urbana brasileira ainda não está preparada para o aumento do uso desses equipamentos.
Calçadas desniveladas, ausência de ciclovias contínuas e vias deterioradas aumentam a instabilidade durante a condução.
A ortopedista Dra. Giselly Veríssimo, presidente da regional Pernambuco da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, alerta que muitos usuários ainda enxergam o patinete como brinquedo, subestimando os riscos envolvidos.
Segundo ela, a combinação entre imprudência e vias urbanas irregulares cria um ambiente de alto potencial para acidentes.
Tempo de recuperação pode ultrapassar três meses
De acordo com dados citados pela SBOT, o tempo médio de recuperação das fraturas relacionadas aos acidentes com patinetes varia entre oito e 12 semanas.
Entretanto, esse período pode ser prolongado dependendo de fatores como:
- gravidade da fratura
- necessidade de cirurgia
- lesões ligamentares associadas
- idade do paciente
- necessidade de fisioterapia
Em casos mais graves, alguns pacientes evoluem com limitação funcional prolongada.
Nos últimos anos, os serviços de ortopedia e trauma passaram a observar um crescimento consistente dos atendimentos relacionados à micromobilidade urbana.
Na prática hospitalar, isso significa maior demanda por:
- cirurgias de punho e tornozelo
- tratamento de traumatismos cranianos
- reabilitação funcional
- fisioterapia pós-trauma
- manejo de fraturas complexas
Especialistas destacam que muitos acidentes poderiam ser evitados com medidas simples de prevenção e treinamento adequado.
Recomendações de segurança da SBOT
Para reduzir o risco de acidentes e minimizar danos, especialistas orientam:
Uso obrigatório de equipamentos de proteção
- capacete
- joelheiras
- cotoveleiras
- protetores de punho
Evitar uso em vias irregulares
Buracos e desníveis aumentam drasticamente o risco de queda.
Não utilizar celular durante a condução
A distração reduz tempo de reação e equilíbrio.
Nunca transportar passageiros
O excesso de peso compromete estabilidade e frenagem.
Respeitar limites de velocidade
Velocidades elevadas aumentam gravidade dos traumas.
Realizar treinamento prévio
A SBOT recomenda prática inicial em locais planos e seguros antes do uso em vias públicas.
Especialistas defendem regulamentação e educação preventiva
Além do uso de EPIs, entidades médicas defendem:
- campanhas educativas
- fiscalização
- melhoria da infraestrutura urbana
- regulamentação mais clara da circulação
- incentivo ao uso seguro
O objetivo é reduzir o impacto crescente desses acidentes sobre emergências hospitalares e serviços de ortopedia.
O aumento do uso de patinetes elétricos trouxe novos desafios para a saúde pública e para a ortopedia brasileira. Embora sejam vistos como alternativa moderna de mobilidade, os equipamentos podem provocar lesões graves quando utilizados sem proteção adequada ou em ambientes urbanos inseguros.
Especialistas reforçam que prevenção, treinamento e uso correto dos equipamentos de segurança continuam sendo as medidas mais eficazes para reduzir fraturas, traumatismos e sequelas relacionadas aos acidentes com patinetes.
FAQ — Patinetes elétricos e lesões ortopédicas
Quais são as lesões mais comuns em acidentes com patinetes?
Fraturas de punho, antebraço, tornozelo e traumatismos cranianos estão entre as mais frequentes.
Capacete realmente reduz o risco?
Sim. O uso do capacete reduz significativamente o risco de traumatismos cranianos graves.
Quanto tempo demora a recuperação?
Em média, entre 8 e 12 semanas, podendo variar conforme a gravidade da lesão.
Crianças podem usar patinete elétrico?
Especialistas defendem supervisão rigorosa e uso obrigatório de equipamentos de proteção.